O Artilheiro Comentarista
Gestão Esportiva na Prática: o futebol brasileiro não perde tempo. Ele o desperdiça

Gestão Esportiva na Prática: o futebol brasileiro não perde tempo. Ele o desperdiça

A CBF apresentou aos clubes das Séries A e B um conjunto de mudanças nas regras das competições nacionais com o objetivo de combater o antijogo e aumentar o tempo de bola rolando. Mais do que as medidas aprovadas, o encontro chamou atenção pela forma como as decisões foram construídas: os clubes foram consultados, participaram dos debates e votaram cada uma das dez propostas apresentadas.

A participação dos clubes representa um movimento importante na governança do futebol brasileiro. Em vez de simplesmente receberem decisões já estabelecidas, as equipes tiveram espaço para discutir as mudanças e, ao aprová-las, também assumiram parte da responsabilidade pelos resultados que essas medidas poderão produzir.

Os números ajudam a explicar a necessidade de mudanças. Atualmente, a Série A registra média de 52 minutos e 54 segundos de bola rolando por partida, enquanto a Série B apresenta média de 51 minutos e 9 segundos. A proposta é aumentar gradualmente esse número e aproximar as competições brasileiras da marca de 60 minutos de jogo efetivo. A meta imediata é terminar o ano na faixa de 57 a 58 minutos.

Entre as alterações estão limites de tempo para cobranças de laterais e tiros de meta, regras mais rígidas para a saída de jogadores substituídos, mudanças nos protocolos de atendimento médico, restrições às reclamações dirigidas à arbitragem e novas possibilidades de intervenção do VAR.

A polêmica do cartão vermelho

Entre as dez propostas, a de número oito foi a que provocou a votação mais equilibrada. A medida prevê cartão vermelho em determinadas situações nas quais jogadores cubram intencionalmente a boca durante discussões ou conflitos em campo.

Apesar da controvérsia, as demais propostas receberam apoio mais amplo dos clubes. A discussão, no entanto, mostra que qualquer mudança no futebol precisa ser analisada com cuidado, especialmente quando envolve arbitragem, comportamento dos atletas e interpretação das regras.

As medidas podem contribuir para tornar as partidas mais dinâmicas, mas não devem ser tratadas como solução definitiva para todos os problemas do futebol brasileiro.

O desafio vai além das regras

O futebol brasileiro tem, historicamente, uma forte tendência a buscar respostas imediatas para problemas que muitas vezes são estruturais. Quando ocorre um erro de arbitragem, por exemplo, a reação costuma ser procurar uma nova regra, aumentar uma punição, ampliar o uso da tecnologia ou apontar um responsável.

Mas a realidade do futebol é mais complexa.

A arbitragem envolve preparação, interpretação, comunicação, tecnologia, comportamento dos jogadores, pressão externa e, principalmente, a enorme carga emocional que envolve cada partida.

A paixão é um dos principais motores do futebol. É ela que transforma um clube em identidade, uma partida em pertencimento e uma conquista em memória coletiva. Ao mesmo tempo, essa paixão também interfere na maneira como torcedores, dirigentes e até profissionais do futebol enxergam determinadas decisões.

Diante de um lance polêmico, raramente existe apenas a análise objetiva da jogada. O julgamento também é influenciado pela história do clube, pelas expectativas, pelos interesses e pelas experiências acumuladas ao longo dos anos.

Mudar o regulamento é apenas o primeiro passo

Um título pode permanecer na memória de um torcedor durante décadas. Da mesma forma, um erro de arbitragem que tenha influenciado uma final, uma classificação, uma vitória ou até a permanência de um clube em determinada divisão pode permanecer como uma ferida aberta por muito tempo.

Por isso, qualquer transformação efetiva no futebol brasileiro precisa ir além do regulamento.

As novas regras propostas pela CBF podem representar um passo importante na busca por partidas com mais tempo efetivo de jogo e menos interrupções. O verdadeiro desafio, porém, estará na aplicação uniforme das medidas, na preparação dos profissionais envolvidos e na capacidade de todos os agentes do futebol compreenderem que a evolução do esporte depende não apenas de novas regras, mas também de mudança de comportamento.

A participação dos clubes nesse processo é positiva justamente porque amplia o debate e distribui responsabilidades. Agora, caberá à CBF, às equipes, aos jogadores, às comissões técnicas e à arbitragem transformar as decisões tomadas em prática dentro de campo.

No futebol, nenhuma regra é capaz de resolver sozinha problemas construídos ao longo de décadas. Mais tempo de bola rolando é um objetivo importante, mas a evolução do futebol brasileiro exige também educação, profissionalização, transparência, diálogo e responsabilidade coletiva.

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