
Vasco e Flamengo se enfrentam nesta quinta-feira (29), no Estádio Nilton Santos, em um clássico que reúne rivalidade esportiva e um cenário de tensão nos bastidores. A relação entre Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, e Pedrinho, mandatário vascaíno, se deteriorou ao longo de uma sequência de episódios que envolvem a venda da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Vasco, empréstimos milionários, declarações públicas, uma ação judicial e divergências sobre o Maracanã.
O conflito ganhou força a partir de 2025, quando Bap começou a questionar a negociação da SAF cruz-maltina com Marcos Lamacchia, empresário e filho de José Roberto Lamacchia, proprietário da Crefisa e marido de Leila Pereira, presidente do Palmeiras.
Em 2026, a discussão passou a envolver também a situação financeira do Vasco, as condições para a entrada de novos recursos no clube e a relação entre a diretoria cruz-maltina e o consórcio responsável pela administração do Maracanã, formado por Flamengo e Fluminense.
Outubro de 2025: Bap questiona a negociação da SAF
Uma das primeiras manifestações públicas de Bap sobre a negociação ocorreu em outubro de 2025, durante uma reunião do Conselho Deliberativo do Flamengo.
O dirigente rubro-negro levantou questionamentos sobre a venda da SAF do Vasco a Marcos Lamacchia, especialmente em razão da relação familiar do empresário com Leila Pereira, presidente do Palmeiras.
A preocupação apresentada por Bap envolvia a possibilidade de conflito de interesses entre clubes que disputam espaço no futebol brasileiro. O assunto ganhou repercussão porque a operação poderia colocar o controle do futebol vascaíno nas mãos de um empresário ligado à família da dirigente palmeirense.
A questão, porém, precisa ser diferenciada de uma irregularidade comprovada: o parentesco entre os envolvidos, por si só, não demonstra a existência de ilegalidade na negociação.
Outubro de 2025: empréstimo de R$ 80 milhões da Crefisa
Outro ponto importante surgiu com um empréstimo de R$ 80 milhões concedido pela Crefisa ao Vasco, por meio de uma modalidade de financiamento conhecida como DIP, utilizada em processos de recuperação judicial.
O dinheiro foi destinado às necessidades financeiras do clube. A operação, entretanto, ganhou relevância adicional diante das negociações para que Marcos Lamacchia assumisse a SAF vascaína.
Segundo informações publicadas pelo ge, caso a operação de compra seja concluída nos termos previstos, o valor do empréstimo poderá ser convertido em parte do investimento na SAF. Se a negociação não se concretizar, o tratamento da dívida será diferente.
A operação tornou-se um dos elementos centrais das críticas de Bap, que passou a questionar as relações financeiras envolvidas no processo. Para o Vasco, por outro lado, o financiamento representa uma forma de sustentar as atividades do clube enquanto a venda da SAF avança.
Julho de 2026: Vasco busca mais R$ 40 milhões
Em julho, o Vasco recorreu novamente à Justiça para solicitar autorização para receber outros R$ 40 milhões, desta vez da Almirante Participações, empresa ligada a Marcos Lamacchia.
O mecanismo também foi apresentado como financiamento DIP. A proposta previa que o dinheiro fosse utilizado para manter as operações do clube e auxiliar no cumprimento das obrigações financeiras.
Conforme a solicitação divulgada pelo ge, o valor poderia ser descontado dos aportes futuros de Lamacchia caso ele assumisse a SAF. O pedido evidenciou a necessidade de recursos imediatos do Vasco durante o processo de recuperação judicial.
A sequência de operações financeiras aumentou a discussão sobre a dependência do clube em relação aos recursos vinculados ao possível comprador da SAF.
Agosto de 2026: disputa financeira e novas críticas
Em agosto, a tensão aumentou com a discussão sobre a situação econômica do Vasco e a possibilidade de novos empréstimos para manter o fluxo de caixa.
O Flamengo levou questionamentos sobre a situação econômico-financeira do rival à Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF). O clube rubro-negro defendia que a situação fosse analisada diante das dificuldades financeiras comunicadas pelo Vasco e de sua movimentação no mercado.
A iniciativa foi recebida com insatisfação por Pedrinho, que interpretou as manifestações de Bap como uma interferência nos assuntos do clube cruz-maltino.
A divergência passou a ser também uma discussão sobre os limites da atuação institucional de um clube rival: de um lado, o Flamengo sustentava a necessidade de questionar questões relacionadas à sustentabilidade financeira do futebol; do outro, o Vasco contestava a maneira como essas preocupações eram apresentadas publicamente.
19 de agosto de 2026: Pedrinho sobe o tom contra Bap
O conflito ganhou dimensão pessoal em 19 de agosto, quando Pedrinho criticou publicamente Bap durante o embarque da delegação vascaína para Assunção, no Paraguai.
O presidente do Vasco afirmou que suas críticas eram dirigidas à pessoa de Bap, e não à instituição Flamengo. Na ocasião, utilizou expressões como “mau-caráter”, “arrogante”, “prepotente”, “soberbo”, “hipócrita” e “irresponsável”.
Pedrinho argumentou que considerava contraditório o discurso de Bap sobre a necessidade de isonomia e de regras iguais no futebol brasileiro quando o assunto envolvia os interesses do Flamengo.
As declarações ampliaram a repercussão do conflito e transformaram uma divergência administrativa em um embate público entre os dois dirigentes.
25 de agosto de 2026: Bap processa Pedrinho
Seis dias depois das declarações, Bap entrou com uma ação judicial contra Pedrinho na 1ª Vara Cível da Regional de Bangu, no Rio de Janeiro.
O presidente do Flamengo pediu indenização de pelo menos R$ 40 mil por danos morais e uma retratação pública com alcance semelhante ao das declarações que motivaram o processo.
De acordo com informações do ge e do UOL, a defesa de Bap argumentou que as críticas ultrapassaram os limites de uma divergência institucional e atingiram sua honra pessoal.
O processo acrescentou uma nova dimensão ao conflito. A discussão deixou de se limitar às posições dos clubes sobre a SAF e passou a envolver também a responsabilidade individual dos dirigentes por declarações públicas.
É importante ressaltar que o ajuizamento da ação não significa que o pedido de indenização tenha sido reconhecido pela Justiça. O valor de R$ 40 mil corresponde ao montante solicitado por Bap, não a uma condenação confirmada.
Agosto de 2026: proposta de mais R$ 150 milhões
A situação financeira do Vasco ganhou outro capítulo quando o clube pediu autorização judicial para um empréstimo DIP de até R$ 150 milhões, vinculado à Almirante Participações, empresa de Marcos Lamacchia.
A diretoria argumentou que precisava de recursos para preservar as operações e cumprir compromissos financeiros durante a recuperação judicial.
Segundo reportagem do Terra, o Vasco afirmou que seu caixa poderia enfrentar dificuldades severas em curto prazo caso os recursos não fossem liberados.
O pedido também levantou dúvidas sobre a concentração dos financiamentos no grupo empresarial interessado em comprar a SAF. A Justiça solicitou esclarecimentos e uma nova auditoria financeira, apontando a necessidade de examinar os efeitos dos empréstimos sobre o processo de venda.
A discussão revelou o principal dilema financeiro do Vasco naquele momento: conseguir dinheiro para manter o clube funcionando sem comprometer a transparência e a segurança jurídica da futura operação.
Setembro de 2026: proposta de compra da SAF avança
Em setembro, o Vasco encaminhou aos órgãos internos do clube a proposta apresentada pela Almirante Participações, de Marcos Lamacchia, vencedora do processo competitivo para a compra da SAF.
A oferta prevê que a empresa detenha 90% do capital social e votante da Vasco SAF, enquanto o clube associativo manteria participação mínima de 10%, conforme os termos divulgados.
A operação foi estimada em aproximadamente R$ 3 bilhões e inclui R$ 500 milhões em aportes para o futebol, além de recursos destinados ao centro de treinamento e ao tratamento das dívidas e dos compromissos financeiros do clube.
A proposta também exigiu discussões sobre a adequação do estatuto vascaíno, já que a participação prevista para o clube associativo é inferior aos 20% estabelecidos anteriormente no estatuto.
O avanço da negociação manteve a SAF no centro do conflito com o Flamengo. A oposição de Bap à operação e os questionamentos sobre as relações familiares dos envolvidos continuaram alimentando a disputa pública.
A compra, entretanto, envolve procedimentos jurídicos e decisões dos órgãos competentes do Vasco. A apresentação de uma proposta vencedora não deve ser confundida automaticamente com a conclusão de todas as etapas necessárias para a transferência do controle.
Setembro de 2026: parceria entre Vasco e NFL é barrada no Maracanã
A disputa entre Vasco e Flamengo também ganhou um capítulo comercial durante a realização do NFL Rio Game, no Maracanã.
O Vasco havia planejado ações promocionais relacionadas a uma coleção de roupas desenvolvida em parceria com a NFL e a marca Approve. Entre as iniciativas previstas estavam a comercialização dos produtos no estádio e a exibição de material publicitário.
Segundo reportagens do ge, de O Dia e do Lance!, as ações foram vetadas pelo consórcio responsável pelo Maracanã. Publicações também atribuíram a Bap um pedido para impedir a comercialização e a divulgação da coleção no local.
Com a decisão, os produtos foram redirecionados para uma loja da NFL no Shopping Leblon.
O episódio aumentou o desgaste porque o Vasco entendeu que uma iniciativa comercial do clube havia sido prejudicada em um evento de grande visibilidade. O caso também evidenciou como a administração do estádio pode afetar os interesses comerciais de uma equipe que não controla diretamente o complexo.
A atribuição do veto a Bap foi relatada pela imprensa; ela deve ser tratada como informação atribuída às reportagens, e não como prova independente de motivação pessoal.
A disputa pelo Maracanã: por que o estádio virou outro foco de tensão?
O Maracanã é administrado por um consórcio formado por Flamengo e Fluminense. O Vasco possui acordos para utilizar o estádio em determinadas partidas, mas a liberação depende das condições contratuais e operacionais aplicáveis a cada situação.
Em 2026, o clube cruz-maltino enfrentou dificuldades para conseguir o estádio em alguns jogos. Entre os casos noticiados estavam partidas contra Vitória e Palmeiras, pela Copa do Brasil, além das discussões sobre o local de jogos importantes de competições continentais.
A justificativa apresentada pelo consórcio em determinados episódios envolveu as condições do gramado e a sequência de partidas programadas. A diretoria vascaína, por sua vez, contestou a forma como as solicitações eram tratadas e afirmou que o clube precisava ter seus direitos respeitados.
O presidente Pedrinho chegou a declarar que pretendia priorizar São Januário para o clássico contra o Flamengo, em vez de continuar dependendo da liberação do Maracanã.
A escolha do Estádio Nilton Santos para o confronto desta quinta-feira (29) é mais um capítulo desse cenário. O mando de campo pertence ao Vasco, mas a partida será realizada fora de São Januário e do Maracanã.
O que está em jogo para cada clube?
Para o Vasco, a prioridade é concluir a negociação da SAF em condições que permitam financiar o futebol, enfrentar o endividamento e garantir estabilidade para as próximas temporadas. A diretoria também busca maior previsibilidade na utilização dos estádios e na condução de suas ações comerciais.
Para o Flamengo, os questionamentos apresentados por Bap envolvem a transparência da negociação da SAF, as relações financeiras entre os envolvidos e as regras que devem ser observadas pelos clubes brasileiros. Ao mesmo tempo, a administração do Maracanã coloca o Rubro-Negro no centro de decisões que afetam diretamente o rival.
Para Pedrinho e Bap, a disputa passou a ter consequências que ultrapassam a rivalidade esportiva. As declarações públicas, a ação judicial e os desentendimentos institucionais aumentaram o custo político de qualquer recuo e dificultaram uma relação mais colaborativa entre as diretorias.
Vasco x Flamengo: rivalidade dentro e fora de campo
O clássico desta quinta-feira (29), no Estádio Nilton Santos, acontece em meio a uma das fases mais tensas da relação recente entre as diretorias de Vasco e Flamengo.
A disputa não se resume a declarações entre presidentes. Ela envolve o futuro societário do Vasco, a entrada de bilhões de reais em investimentos previstos, empréstimos emergenciais, a recuperação judicial do clube, questionamentos sobre governança e o uso de um dos estádios mais importantes do país.
O desfecho desses assuntos dependerá de decisões judiciais, deliberações internas do Vasco, condições contratuais e eventuais novos posicionamentos dos clubes.
Enquanto isso, o clássico mantém a rivalidade esportiva em evidência, com um ingrediente adicional: o desgaste entre Bap e Pedrinho, que transformou divergências administrativas em uma disputa pública de grandes proporções.
